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Novo tratamento para câncer de mama adia quimioterapia por até 4 anos

21/11/2019 00:00

Um estudo inédito publicado no periódico JAMA Oncology descobriu uma nova combinação de medicamentos para o câncer de mama metastático – a fase mais avançada da doença – capaz de aumentar em até 10 meses a taxa global de sobrevida – que, atualmente, é de cerca de três anos. A terapia ainda possibilita o adiamento da quimioterapia por até quatro anos. O novo tratamento é feito por meio da combinação do abemaciclibe (um inibidor de ciclina, enzima responsável pela divisão celular) e do fulvestranto (uma medicação anti-hormonal que interfere no processo de proliferação celular).

“Esses resultados são muito impactantes. A nova combinação permite que, mesmo com doença metastática, as pacientes vivam mais e com qualidade de vida. Além disso, elas conseguem adiar o uso da quimioterapia por períodos mais longos e têm a conveniência de tomar a medicação em casa”, explica Gilberto Amorim, coordenador nacional de Oncologia Mamária da Oncologia D’Or. 

Outra vantagem são efeitos colaterais menores: ao contrário da quimioterapia tradicional, que causa uma série de desconfortos para as pacientes, a nova combinação não causa queda de cabelo, baixa imunidade, vômito ou maior risco de infecções. Os efeitos adversos mais comuns são alterações no sangue e diarreia – problemas de fáceis de monitorar e tratar. Essa menor incidência de efeitos colaterais se deve ao fato de que as substâncias atingem majoritariamente células tumorais, ou seja, poucas células sadias são prejudicadas pelo tratamento.

A nova combinação é indicada para pacientes com câncer de mama metastático que já tenham falhado em tratamento anterior com anti-hormônios. De acordo com Amorim, pode ser que no futuro, avaliando os resultados no dia a dia dos pacientes, seja possível acioná-la para o tratamento inicial desse estágio do câncer.

Mecanismo de ação
De acordo com a pesquisa, a junção dos medicamentos conseguiu reduzir em 25% o risco de morte entre pacientes que já haviam falhado em uma terapia endócrina prévia. Esse resultado é possível porque o abemaciclibe inibe a produção da enzima ciclina, fundamental para o processo de divisão celular. Uma vez que essa enzima deixa de ser produzida, há interrupção do ciclo celular, o que impede a proliferação de células tumorais e, consequentemente, leva à morte das células doentes.

Já o fuvestranto retira o estímulo hormonal para que elas não se proliferem ao mesmo tempo em que bloqueia o mecanismo de divisão celular. “Por isso a combinação funciona tão bem”, comenta Amorim. O oncologista esclarece que os resultados variam de acordo com o paciente já que cada organismo opera de forma diferente. “Alguns podem responder por menos tempo e outros sequer vão responder”, diz.

As novas descobertas foram apresentadas no Congresso da Sociedade Europeia de Medicina Oncológica (ESMO, na sigla em inglês), que aconteceu em Barcelona, na Espanha, entre os dias 27 de setembro e 1º de outubro.

Como conseguir a combinação?
Segundo Amorim, o fuvestranto (injeção mensal) é de fácil acesso e os convênios médicos cobrem os custos da medicação. Entretanto, o abemaciclibe (comprimido de uso diário) não é de cobertura obrigatória por não estar no hall de medicamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS). Alguns convênios podem aceitar a solicitação, mas outros só vão fornecer a medicação por meio de liminar judicial.

“As pessoas devem solicitar o acesso ao remédio para o plano de saúde, mesmo que tenham de entrar na justiça para consegui-lo, pois os resultados são significativos na vida do paciente”, ressalta. O especialista espera que a substância entre na lista da OMS em 2021, o que deve facilitar sua obtenção.

Câncer de mama
O câncer de mama é o mais comum entre mulheres e o segundo tipo que mais causa morte no Brasil, sendo responsável por 14 óbitos a cada 100.000 mulheres brasileiras, de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Em 2016, foram registradas mais de 16.000 mortes. A entidade ainda estima que devem surgir quase 60.000 novos casos em 2019.

A população mais afetada pela doença é a feminina – especialmente a partir dos 40 anos –, mas também pode acometer homens (1% dos casos). Se diagnosticado precocemente, a chance de cura chega a 95%. Dados do Estudo Amazona indicam, no entanto, que a maioria das mulheres no Brasil recebem o diagnóstico em fase avançada: 53,5% em estágio II e 23,2% em estágio III. Isso reduz a probabilidade de cura.

O estágio IV, também chamado de câncer de mama metastático, é a fase mais avançada da doença, quando as células cancerígenas afetam outros órgãos do corpo, como ossos, pulmão, fígado e cérebro. De acordo com Amorim, o câncer de mama metastático é incurável e apresenta altas taxas de mortalidade – a maioria dos pacientes morre em decorrência do câncer. “É como se fosse uma doença crônica, você consegue tratá-la, mas provavelmente vai precisar da medicação para o resto da vida”, explica.

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